Algumas lembranças, os meus fantasmas me dizendo "Buh!"

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Não sei se você percebeu, mas estou evitando você


Uma frase apenas: não sei se você percebeu, mas estou evitando você. O que é isso? Digo, não no sentido gramatical, essa parte eu compreendi, mas o que uma pessoa pode querer dizer com isso é que me intriga. Não sei se você percebeu, mas estou evitando você é um torpedo seco que recebi de Juliete hoje pela manhã, e que me deixou trêmulo, irritado e enjoado o dia todo. Deu pra notar que Juliete está fugindo de mim, ela não tem se apresentado no café ou lá em casa, nem em rompantes e nem com hora marcada. Eu também ando me esquivando de confusões, e me mantido longe da área dela, mesmo sem saber ao certo onde fica, em que bairro, em que mundo Juliete vive. E mesmo se eu soubesse, de toda forma eu não pintaria lá. Então é isso: não estamos nos falando, desde a noite que dormimos juntos e fizemos a coisa. Sabe como é aquele ditado, “sexo gratuito estraga tudo”. Não é um grande ditado, talvez nem seja um ditado, mas de qualquer forma pretendo repeti-lo até que no fim do dia seja considerado uma grande máxima pela esfera acadêmica. Quem sabe até eu peça a ajuda de alguns universitários fregueses mais antigos (“Como estava o seu café? Aqui está seu troco. Sexo gratuito estraga tudo. Passe adiante, por favor.”) Mas, voltando ao campo das análises sintáticas. Não sei se você percebeu, mas estou evitando você. Por exemplo: estou evitando os carboidratos. O que o sujeito da frase está querendo dizer no emprego do verbo evitar? Que ele odeia macarrão ou chocolate? Ou que ele os adora, mas precisa fugir pois os macarrões e os chocolates não têm caído muito bem, não é o momento certo para comê-los, eles são uma tentação formidável, ou seja, significa que a criatura precisará despender de um esforço imenso para não ingeri-los, certo? Certo. Sou bom no português e não sou louco, eu sei que é. Que siga me evitando então, se isso fará você sentir-se melhor, Juliete. Mas não se engane, se você odiasse macarronadas e chocolates, ou pior, os desdenhasse com indiferença, não mandaria recados para eles, ou pensaria neles já pela manhã, não é mesmo? Respondo um taciturno e monossilábico “Ok.” e toco as coisas aqui no café, com Juliete não preciso me preocupar. Nada acabou. Ela está me evitando porque sabe que, assim como eu, também tem calafrios quando tocada por essa sensação desconfortável. Sabe, ela pode ter toda uma vida à parte, toda uma colcha de acontecimentos até aqui, um patamar alcançado, uma história, com namorado, a faculdade de psicologia, a herança, a mãe morta, as amigas, família e animais de estimação; e eu, o outro pedaço do conto, também tenho um fundamento, de certa forma, mesmo sem tanta tralha e sofisticação – bem, eu existo, não é, ou é apenas uma ilusão? Em todo caso, pareço não ter escolha, enquanto os dias vêm e vão. Só consigo pensar nisso. Em planos B, em opções e intercorrências.

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