Dizem que a vida passa em flashes quando ela está por um fio. Ou um gatilho, ou qualquer coisa curta que dispara com pouca pressão.
Nunca vi esses flashes, nem os pedaços de filme passando, os momentos importantes, nem nada disso.
No caso do gatilho, minha cabeça continuou a mesma, com a diferença que estava prestes a ser explodida. Explodida por alguma palavra errada, por um segundo a mais de descuido, por qualquer movimento brusco, ou olhar atravessado.
E tudo que eu pensava não eram os flashes, nem os filmes, nem na minha infância - eu só pensava no dedo prensado atrás do gatilho, no espasmo involuntário que faria aquela coisa disparar.
Deveria ser uma forma muito estúpida de morrer, assim numa segunda-feira, por volta das oito da noite na mão de um vagabundo qualquer que aparece na calçada. Virar estatística nunca foi meu plano de vida. A cidade está infestada. Somos todos pervertidos, mendigos, ladrões, viciados, pedófilos, maníacos, charlatões, vagabundos, burocratas, contrabandistas, violadores, adúlteros, doentes, assassinos, desistentes. Convulsionando em objetivos dos quais não temos muita idéia do que se tratam, lutando por comida e aluguel, esperando um dia que jamais vai chegar, por pessoas que jamais vão existir, e tentando ser alguém que jamais seremos. Estamos todos
Você sobrevive. O dia acaba e sua cabeça irá continuar explodindo por aí, na cabeça dos outros.
Isso enquanto você tiver uma cabeça, é claro.

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