Algumas lembranças, os meus fantasmas me dizendo "Buh!"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O camelo e o dromedário



Hoje completam quinze dias que ela deixou aquela porta. Só que antes de deitar sua cabeça pra esquerda demonstrando algum dó de mim, preciso dizer que não é tão ruim quanto parece. Eu disse quinze dias, ou seja, chorar agachado no chuveiro já não faz mais sentido, é o tempo que você precisa pra levitar e ver de cima, como tudo realmente é. Vagamente lembro dela resmungando algo sobre almas gêmeas. Andava meio que procurando isso. Até aí, tudo muito justo.

Sinto sua falta, claro que sim, mas não era como se tivéssemos nos encontrado numa situação astrológica e cósmica, sabe? Eu estava cansado, ela estava sangrando, então apertamos um pouco o nó e resolvemos que era melhor ser sozinho na mesma cama de alguém. Todos fazem isso, quantos dedos são necessários pra enumerar esses casais que caminham juntos, tristes e em silêncio, sem querer saber o que de fato está acontecendo?

Bem, sobre a coisa da alma gêmea. Por que não tentar? Depois de arrastar o sofá mais pra janela como sempre quis, liguei pra um número que tinha anotado no verso de uma propaganda de gás. Quando você separa, e passa os primeiros dias chorando feito uma garotinha de 14 anos, nos próximos dias cria-se uma atmosfera ilusória de ser possível carregar pra sua casa todas as garotas que você acha que deixou de comer. Ledo engano, de modo que investi a minha melhor jaqueta nessa da propaganda de gás.

Depois de muitos drinques, incontáveis jantares, inúmeros cinemas, cheques sem fundo e três horas corridas tentando explicar a diferença entre escanteio e tiro de meta, ela disse "sim". E eu fiquei eternamente grato, pois alguém aceitou minha mão dentro do sutiã. Mas, na boa, quem não ficaria exaltado sabendo que era o tipo de garota que mesmo o Johnny Deep simpatizaria com sua aparência, muito embora sabendo que suas orelhinhas pontudas de elfo pra fora do cabelo seriam meio que eliminatórias até mesmo na lista do Jack Sparrow, após seis meses de mar. Azar, pra mim, era o Everest.

Acontece que após aquecer as mãos, comecei a vasculhar sobre essa coisa de almas gêmeas dentro da blusa dela, peça por peça, fui fuçando aquele corpo macio como um tamanduá faminto inspeciona um formigueiro, as axilas, os seios, a cintura decorada com pequenas estrias até bem charmosas, dando aquele tom de "garota normal", fazendo você notar que aquilo está realmente rolando, e não é mais um daqueles sonhos juvenis que vêm quando você adormece no sofá assistindo a novela das oito. Até que, bem, tirei suas meias e encontrei um pé 42. Dois, sinceramente.

Não entenda mal, nada contra uma fêmea ter o pé 42, se ela for um tipo de lenda das montanhas ou um urso glacial. O lance é que me acostumei com pé 35/36. Aí você percebe o quão essa coisa de amor é ingrata. Você planeja sua vida inteira ao lado de um pé 35/36, sonha um dia levar pés 35/36 pra conhecer sua mãe, e pés 35/36 são mesmo bacanas porque você se acostuma com a relação tamanho do dedão versus sua mordida, sabe? Aí, de repente, como uma espécie de vingança, a vida na maior caradura te oferece nada menos que seis números a mais - e depois de tanto clamar por novidades, você deve aceitar e agradecer, certo?

Errado. Morena, se você estiver me escutando, não importa se estivemos divergindo do joelho pra cima, eu simplesmente não tenho energia pra aquecer pés maiores. Pode ser uma questão de costume, mas acredito que somos tal camelo e dromedário. Certo, temos nossas diferenças, porém ao toparmos em alguma esquina no meio do deserto, a gente meio que se reconhece, entende?

Não quero saber de separação, é muito tarde pra esse tipo de surpresa, cansei de escalar montanhas ou almas gêmeas. Tenho vinte e nove, porra. Tudo que quero é ir pra casa e encontrar você lá, pode ser com a velha cara de tédio e aflição. Mas não anoitecer em bares lotados atrás de uma nova sensação. Eu já vivi todas as sensações. Levanto o fone do gancho pra saber como tão as coisas. Quem sabe dá pé.

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