Algumas lembranças, os meus fantasmas me dizendo "Buh!"
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Rede anti-social
Tenho grandes amigos, todos uns fracassados como eu. Embora não fora isso que nos uniu em primeira instância, provavelmente foi o que nos manteve em contato todos esses anos - nossa ruína amorosa e profissional, enquanto outros colegas ficaram pelo caminho, bem empregados em alguma estatal, com milhares de esposas e carros e filhos e férias na Europa. Coisa que ao nosso ver ainda é muito cedo, mesmo aos trinta. A cada sete dias, no bar, as mesmas questões acrasíacas "até agora não sei o que quero fazer da minha vida, cara." ou "os monogâmicos deveriam ser presos, cara" e por aí vai.
Cultivar os mesmos amigos por temporadas a fio é um grande sinônimo de lealdade. Ou de preguiça. Eu amo cada um deles e eles sabem disso. Faço questão de os relembrar depois da terceira long-neck. A fatia não muito boa dessa condição confortável é que os antigos amigos têm uma dificuldade crônica de mantê-lo em movimento, em voga. Certo, você pode contar com eles para qualquer coisa, em quase todos os momentos "Um drinque rápido? Claro, cara. Só o tempo de combinar com a Gi de ela fazer alguma coisa também. Ok, tenho livre dia 17, antes da novela, fica bom pra você?".
Têm dias que a vida parece estar acontecendo em outro lugar, lá onde todas as pessoas interessantes estão rindo da sua cara de emburrado em casa. Você sente que precisa enfiar mais troços, preenchê-la de alguma forma. Ter um caso, topar uma festa eletrônica em alguma ilha, tomar alguma droga do momento, fazer seu perfil bonito numa rede social bacana, trocar de sexo, matar a mãe a pauladas ou qualquer merda que dê a impressão placebo de que você existe. Por esta razão, às vezes, meio contrariado, eu aceito alguns convites.
Percebo a armadilha na qual armei para mim mesmo já no "gente, gente, esse é aquele cara que falei pra vocês". As pessoas envernizam um sorriso e fingem por alguns segundos que sou um cidadão emérito de um pouco das suas atenções ocupadas com o DJ norueguês que está fazendo muito sucesso esta semana ou algum novo aplicativo do iPhone que localiza num raio de 50 metros outras pessoas que também estão dispostas a comer uma pizza em São Paulo e retornar a Porto Alegre hoje mesmo.
Posso estar parecendo rabugento, mas sei que não. Isso deve ser o que as capas de revista de comportamento querem dizer com autoconhecimento - se você não vai gostar do resultado, não procure saber quem diabos é você, certo? Mas, há gente legal no meio? Com boa vontade, claro que sim, embora não façam muita questão de mostrar, ou eu precisaria ligar meu smartphone e consultar seus cadastros em alguma rede social restrita a usuários transparentes. Acontece que não tenho um iPhone e os obstáculos não param aí.
Elas dançam todos os ritmos da moda e eu tenho crises na ciática, elas fazem compras na Oscar Freire e eu paguei este suéter vermelho com duas notas de 10, elas são lindas e eu pareço um roadie dos Scorpions, elas estiveram recentemente em Barcelona e eu já fui para Arroio do Sal, elas fazem análises cognitivas e eu grito o nome de ex-namoradas vadias assustando vizinhanças, elas sabem sobre vinhos e eu tomo porres, elas têm iPhone e eu afasia, elas têm feitos e eu tenho falhas.
E eu gosto de sair com essa gente? Adoraria dizer que sim, que suas companhias me fazem um bem danado, mas não sou muito de mentir sorrindo. Ficar em casa emburrado escutando meus Smiths e minhas Joni Mitchell em vários sábados é infinitamente melhor, no duro, sem jogos de cena. Pelo menos, posso dizer convicto, nunca me arrependi. Essa gente são todas más pessoas? Não daqui onde posso vê-las, ao contrário, até. São perfeitas e sorridentes e bonitas e reluzentes e exitosas e felizes e talvez seja isso que eu desprezo nelas. Não conseguir ver em suas interações a porra do sentido.
Sou daquelas pessoas que precisa de sentido, uma conversa precisa significar algo e o fato desses novos amigos passarem a noite inteira cheios de piadas inteligentes endógenas, falando merda o tempo inteiro e contando vantagens sem nenhum traço visível de constrangimento não me ajuda em nada. Pode até ser que minha raiva e desprezo provenha de um sentimento rasteiro dentro de mim, dizendo que, no fundo, eu gostaria mesmo é de também ser vazio, como fazem questão de soar. Eu me pouparia de muito trabalho, disso eu sei.
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eu penso q vc eh seletiva
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