Algumas lembranças, os meus fantasmas me dizendo "Buh!"

terça-feira, 28 de junho de 2011

SUA MÃE


Dezenove horas, anoitecer gelado de um dia fosco, de propósito meu seletor musical executa "Love Hurts", mas a não-original, do Bon Jovi. É quando paro tudo pra sofrer um pouco. É quando telefona minha intuitiva mãe. Minha mãe me liga e a sua? Sorte a nossa, hein? O que parece um alento é na verdade um jeito da vida te chutar quando você está no chão, como fazem aqueles fortões do Ultimate Fight e esses troços.

Mães são egoístas. Ok, pais estão cagando pra você e o resto da família, mas mães pecam pelo excesso de generosidade - que segundo a classe psicanalítica é um egoísmo travesti. Elas praticamente te chantageiam pra que você esteja emocionalmente com tudo em cima, não porque querem sua felicidade suprema, mas porque mães querem finalmente descansar após todos esses vinte e tantos anos de militância patrícia a seu favor - prêmio: netos, muitos netos, ranhentos de preferência.

Então elas fazem perguntas inoportunas sobre sua vida pessoal e resmungam do lado feliz da linha que você está apenas sendo rabugento. - Qual é? Fale comigo sobre suas namoradas, filho. Sou sua mãe, não sou? - Mãe, estou escutando "Love Hurts", o que você acha disso? Você consegue montar o quebra-cabeça juntando "Love" + "Hurts"? Não, claro que não, é apenas sua mãe, ela parou de ouvir canções quando seu maior ídolo musical pisou no freio do seu calhambeque. E não adianta enviá-la uma fita com a música. Ela vai retornar a ligação lembrando a primeira vez que dançou colada no seu pai com aquela música bonitinha (enquanto seu pulso esguicha via Embratel).

Não fica bem falar sobre sentimentos com sua mãe, a não ser que ela seja a Oprah, nem sobre sexo, a não ser que se chame Sue Johansson. Ou então ela deixa automaticamente de ser sua mãe, passa a figurar na sua lista de, sei lá, amigos bizarros. Ok, ok, digamos que você seja um daqueles mimados a compartilhar suas peripécias com seus pais. Me ensina, como rola isso? Posso imaginar algumas linhas eventuais de pensamento, sendo você menino ou menina, todas não exatamente confortáveis, espontâneas e livre de análises edipianas.

1) Mãe, estou legal, continuo sendo amada e o casamento vai bem, obrigada. A parte chata foi ter pego seu querido genro se masturbando ontem à noite, assistindo um show ao vivo do Elton John no Principado de Mônaco. Isso quer dizer algo, não? Aliás, papai também aboliu o sexo oral após o primeiro semestre?

2) Mãe, anda tudo certo, porém ainda não estou sendo amado como você quer. Talvez pra isso acontecer, seja útil que você me diga como reverter no caso de sua namorada resolver dar pra outro? Algum conselho? Você deve entender sobre garotas, não? Você também resolveu dar pra outro em 1966?

Não vejo como isso possa funcionar ou mesmo render frutos. Vamos lá, mãe. Tudo que você sempre quis foi me ver existindo longe do seu amparo, estou bem e o resto deixamos pra lá, esse parto já foi longe demais. Aceite minha falta de perspectiva, não há nada de mau nisso. A gente continuar esperando amor, bondade, bom senso e sinceridade das pessoas é que está errado.

Eu poderia sim dizer todas essas aventuras modernas, mas ela nada entenderia, não tente convencer uma mãe que o amor pode doer ou que "Love Hurts" foi feita para fossas, mesmo na versão original dos Everly Brothers. Apenas aceite seu lamento sobre o quanto você ficou frio e insensível longe de casa.

Porque sua preocupação é fundamentada na vontade de todo pai de ver seus filhos casados e amados à altura, como eles acham que merecemos, mesmo a gente sabendo que não é bem assim. O cordão umbilical realmente se rompe quando mães e filhos escutam "Love Hurts" com ouvidos diferentes.

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