
E as férias haviam terminado. Ela passava dias sozinha, não saia de casa, mas abria a janela e contemplava o sol, toda vez que ele nascia ou se deitava atrás do vale.
Gostava de tomar café em canecas grandes. Sem ter com quem conversar, conversava com as paredes e com os livros. Lia sem parar. E imaginava sem parar.
Alguns dias acordava inspirada, outros se arrastavam cheirando a tédio, um cheiro que ela achava horrivel. Ela comprou uma gaita mas nunca se empenhou em aprender. Apesar de sempre dizer que não gasta dinheiro pra que lhe ensinem algo, quando na verdade, pode aprender sozinha. Ela nunca soube se gosta ou não de ficar sozinha. Mas encontrava um profundo contato consigo mesma, causava em si mesma todas as reações comuns de uma garota nos seus vinte e dois anos. Mas ela já se achava mulher, tinha pensamentos de mulher, desejos de mulher.
Gostava muito do som do piano, mas nunca sequer teve a oportunidade de sentar perto de um. Talvez porque gostava mesmo é de ouvir. Todos os dias ela vive cenas de filme de cinema, todo os dias ela sente as farpas do amor. Amor tão grande que a deixa com a cabeça tonta e sentindo transbordar. Ela é do tipo que se ve gesticulando, falando convícta, é pequena mas jamais se intimidou diante de qualquer grande.
Ela gostava de música, mas gostava muito mais do silêncio. Ela diria que é porque sempre teve a sorte de morar em lugares onde o silêncio se trata de pássaros cantando. Estava contando os dias pra reencontrar a sua alma. Alma que sempre lhe pertenceu, mas que viajava vez ou outra pra longe. Aprendeu a apreciar o sol da janela tomando café, a mergulhar nas melhores leituras mas nunca deixou de se sentir incompleta sem a sua alma.
Encontrou na tecnologia uma maneira de fugir de seres como ela. Que carregavam dentro de si os sete pecados capitais. Principalmente aquelas que não dominam nenhum tipo de instinto. Ela raramente abandonava sua bolha de vidro, decorada com cores laranja, a seu gosto e com muitas lembranças boas. Lá fora o mundo parecia uma de suas séries apocalipticas. Quando abandonava sua bolha de vidro sentia cada parte do universo ao seu redor. Olhava as nuvens e verificava se havia algum desenho. Observava se as flores tinham o aspecto da estação, pois acreditava que nos ultimos anos as estações estavam enlouquecendo. Tentava adivinhar que horas eram olhando para o sol, e fechava os olhos pra imaginar qualquer coisa que fosse e observava as almas que encontrava pelo caminho.
Mas não eram as estações enlouquecendo que a preocupava. Eram as pessoas que não enxergavam a sua alma ou as pessoas que tentaram arrancar-la. Um trago, um gole, um tiro, uma mentira e os sete pecados capitais. Cobrava demais de si e das pessoas, qualquer passo em falso era o abismo. Um trago, um gole, um tiro, uma mentira, uma verdade e um passo em falso. Abismo. Cada dia se torna o ultimo dia.
Ela nunca hesitou em falar a verdade que lhe vinha a cabeça. Muitos diziam que era defeito. Muitos diziam que era qualidade. Ela acreditava que era ser coerente. Se perdia toda vez que acreditava na sua coerencia incoerente. Se testava o tempo todo pra lidar com os sentimentos mais profundos. Sentia que se encaixava em drama. Mas não em dramas baratos ou mexicanos. Seus dramas eram literários, intigantes, inundados de sensações. Ela gostava de sentir.
O cheiro horrivel de tédio a fazia perder a linha, o juízo e a fazia criar dramas. Dramas tatuados, gênios enlouquecidos e almas perdidas. Chorou de um jeito que fazia a alma de longe sentir, de um jeito que cada parte do seu corpo pedia por uma alma. No momento em que sua coerencia incoerente a jogou e ela pisou com um pé no fundo do abismo. Se sentiu completa por alguns segundos, deitou nos braços daquele abismo.
Ouviu sua alma de longe chamar e esperou que ela voltasse pro seu corpo e lhe arrancasse da mesma maneira que lhe atiraram no abismo. Nenhuma ressaca nunca tinha a consumido tanto. Voltou pra sua bolha de vidro mas ainda sem alma. Agora sabe que almas andam por corpos diferentes e não há nada a fazer. Mas o que dói são os espinhos da vida quando não se tem a alma.
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