Algumas lembranças, os meus fantasmas me dizendo "Buh!"

terça-feira, 12 de abril de 2011

"Love Me Before Asking My Name"



As pessoas finalmente se dissiparam porque hoje ninguém canta com os pulmões "Time After Time" ainda mais naquela versão meio parada, meio melancólica, meio pra dentro e meio a mais sexy que já ouvi. Sentei no braço do sofá, que naquela festa significava o trono da menina que sabia tocar violão. Porque é sexy meninas com violão. É sexy meninas que sabem fazer coisas além de trocar esmaltes, falar de gatinhos e beber drinques azulados fazendo pose e pedindo pra tocar umas coisas mais animadinhas aí. Como todas do lugar.

Parecia a Eva Cassidy, com adição de açúcar. E cantava com o olharzinho perdido na janela como a explicar que o lugar dela não era ali, com essa gente e essas músicas de alegrar fevereiro. Os braços fininhos. O cabelo esquisito preso com um pano estranho. E os pés descalços um pouco feios. E dançando só com os ombros e o pescoço e os olhos. E às vezes sorrindo pra baixo, escondendo a vergonha de ser a garota mais especial e bonita da sala e de todas as salas. A menina com o violão. E com a voz tão doce, mas tão doce, que me fez arriscar se ela não podia cuspir um pouco no meu copo com limão. Aí ela riu e eu achei a cantada perfeita, bem melhor que "sua voz é linda, você toca muito bem, qual seu signo, que tal dedilhar uma pra mim no meu apartamento?". É, bem, bem melhor.

E depois fiquei mudo porque nada que eu falasse soaria mais engraçado, gentil, inteligente e encantador. Então ela começou outra coisa e dedilhou aquilo de jeito tão amoroso e maternal, alternando caras de angústia, ternura e prazer que me deu uma vontade insana de não ter nascido isso que sou, mas uma melodia chatinha do Eagle Eye Cherry. Aí eu bocejei e joguei as costas pra trás e ela bloqueou as cordas na palma da mão, parou tudo, e quis saber se era deprê demais. E eu disse que em duzentos anos, ela tinha sido a única mulher a me acalentar de me fazer dormir em pé, as luzes acesas e uma corja de gente falando frases bestas. Ela riu mais uma vez e eu achei que devia correr dali e jogar em alguma loteria porque aquele comentário tinha sido bem melhor que "você devia fazer shows, gravar um disco, qual seu signo, que tal dedilhar uma pra mim no meu apartamento?". É, muito, muito melhor.

E foi curioso porque ela perguntou do som que eu curtia muito antes de saber meu nome, porque a identidade musical fala muito mais de nós. Você pode casar um Genival e uma Letícia, mas nunca um beatlemaníaco com uma fã do conjunto Sambakana. Beatles, gosto de Beatles, minha predileta hoje é "I Want You". Mas ela não sabia essa, mas podia fazer aquela do comercial do carro. Aí tive de contrariar dizendo que "Imagine Me And You" era do Turtles, e que "So Happy Together" era o nome correto da música. E me achou meio pedante e impertinente e fez uma carinha bonita de menina enfezada agarrada naquele instrumento. E eu lembro bem de como ali sentado naquele braço de sofá de festa chata, o quanto eu desejei, um dia, quem sabe, ter uma filha pequena com aquela mesma cara enfezada, os pés um pouco feios e o olharzinho perdido.

Mas aí eu disse que, tudo bem, com esse jeitinho de cantar, você poderia trocar o nome de qualquer música, até obrigar o George Harrison a fazer uma versão sertaneja de "While My Guitar Gently Weeps" ou me fazer buscar uma cerveja ou comer carcaça de bichos. Porque você é tão bonita que deve estar participando dessa festa por beneficência e sua orelhinha pontudinha saindo pra fora do cabelo liso é a paisagem que eu precisava pra nascerem nuvens brancas por todos os meus dias. Riu tímida pela terceira vez. E depois de tanta bola dentro, passei a desconfiar que naquela noite eu seria capaz de encontrar a cura da leshmaniose se quisesse.

Então eu me perguntava, entre uma sombra de silêncio entre nós e outra, se era preciso ser música pra você me amar e tocar em mim e fazer carinhas de angústia, ternura e prazer. Porque eu não sabia seu nome, mas era bem capaz de desistir de todas as festas repetidas e juntar seu olhar perdido com o meu olhar perdido e me achar dentro de ti por vários segundos seguidos. Você, eu, seu violão, sozinhos janela afora, num sofá no meio da rua. Eu queria seu telefone, suas bagunças, seu corte estranho de cabelo, seu tom meigo de voz gemendo dengosa por algum carinho meu. Mas nunca estou certo de que quero saber a verdade.

Mas eu podia vê-la não deixando a afeição fluir mais que a conversa, que o sofá e o violão eram na verdade escudos pra te defender do resto do mundo que pede melodias de anúncios de refrigerante, embora sua grande batalha fosse interna, que o amor é tão fraco e pequeno que se refugia em qualquer parte do seu corpo, talvez entre os dedos que dedilham. Fingindo pra mim e todo mundo que nunca chegaria sua vez, por que essa coisa de amor sangra, e se tem algo que a música nunca te fez foi dizer palavras de propósito pra machucar (isso sem contar as letras do conjunto Sambakana).

Desci todas escadas, atravessei todas as ruas, cruzei todas as esquinas, caminhei pela noite escura, fria e drogada, saindo sem nem ter entrado, porque eu já sabia que jamais subiria no mesmo patamar dos seus solos de guitarra. E quando eu passei por aquele corredor cheio de junkies pervertidos, prostitutas, vômitos e alguns desses artistas de rua catando níqueis pelo chão, foi quando você me ligou com pressa dizendo que tinha algo sério a dizer, eu senti que já sabia. Agora sei o que eu sabia. Porque você me mostrou toda envergonhada sua nova composição "Love Me Before Asking My Name". Uma bela canção, com a introdução mais linda que já vivi.


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